terça-feira, 25 de setembro de 2012

Tirar o máximo do mínimo


Em um ensaio intitulado A defesa da palavra, redigido em meados da década de 1970, o escritor Eduardo Galeano alertava que a ordem social vigente perverte e aniquila a capacidade da imensa maioria dos homens e reduz a possibilidade de criação ao exercício profissional de um punhado de especialistas. Muitas vezes, por mais revolucionários que digam ser, os escritores ao invés de desafiar o bloqueio que o sistema impõe à mensagem dissidente, se dirigem a um público reduzido ou desenvolvem as fórmulas mais banais de esterilização das consciências. Assim, Galeano assevera: “Desconfiemos dos aplausos. Às vezes nos felicitam os que nos consideram inócuos”.           
Tal modo de pensar pode ser aplicado,mutatis mutandis, à arte cinematográfica. A reprodução técnica da arte cinematográfica aliada à sociedade do espetáculo na (pós-)modernidade capitalista reproduz não somente os aplausos dos vencedores, mas também o seu financiamento. Eles não aplaudem a arte. Aplaudem sua mercadoria.    
Na contramão dessa tendência, parte significativa do cinema contemporâneo argentino tem dado provas da possibilidade de criar um cinema livre e crítico que, sob uma sociedade presa, somente pode ser aquele que irradia esperança e denúncia.            
Bem entendido, Las Acacias, do estreante diretor Pablo Giorgelli, é fruto daquilo que se pode dizer genericamente (mas com o risco de simplificações) de consciência crítica cinematográfica que o país de Julio Cortázar vivencia. Surpreendentemente o filme ora citado não propõe divagar sobre a História (com maiúscula) social e política da Argentina. Ao menos, diretamente. Na verdade, a última coisa que almeja a obra de Giorgelli é tornar-se um “grande filme”, mas talvez exatamente por isso seja um.   
Vencedor do prêmio Camera d’Or do Festival de Cannes em 2011, o filme narra a viagem de três personagens (na realidade, são dois, Rubem e Jacinta, sendo que a terceira, Anahi, é uma bebê de cinco meses) que percorrem a estrada de Assunção com destino à Buenos Aires dentro de um caminhão. Trata-se, portanto, de um road-movie. Contudo, nessa estrada, não teremos acontecimentos e aventuras mirabolantes como Thelma & Louise (1991) e outros tantos filmes que seguem o mesmo estilo. Ele tende a inclinar-se mais, embora com outras questões e estilos distintos, à atmosfera da – boa – companhia de Johann e Ranulpho deCinema, Aspirinas e Urubus (2005).     
São personagens silenciosos e solitários e, por isso, cada palavra enunciada, cada expressão facial, cada gesto, assume total relevância. Frases são dificilmente enunciadas. Como se o passado de cada um tivesse um peso tão doloroso que tivessem desistido da prosa fluída. Aos poucos, desconforto, rispidez, frieza, desinteresse, impaciência cedem para o esboço do sorriso, da gentileza de abrir a porta, da educação de oferecer um cigarro ou chimarrão, da alegria em falar a língua guarani, da solidariedade em fazer o bebe parar de chorar.   
Isso impele o telespectador a religar coração e razão e a fazer suposições o tempo todo. A construção desse processo que vai da atitude áspera à delicadeza de ambos os personagens desperta um momento de reencantamento e esperança pela vida. Faz saltar a vida para fora dos trilhos. A estrada transforma-se no passado que possibilita a redenção de cada um.             
Saberemos pouco da história desses valentes personagens até o desfecho do filme. Jacinta tem uma filha que não tem pai. Rubem tem um filho que não visita há anos, mas recorda pormenores do único encontro que teve. Jacinta vai à procura de emprego em Buenos Aires. Rubem é motorista há trinta anos. Não estão na estrada aleatoriamente. A viagem é uma necessidade objetiva, de sobrevivência.                
O filme tem plena consciência sobre qual é o segredo do fracasso e, por isso, não o segue: agradar a todos. Ele não almeja aplausos. E sim interlocutores. Não espera impressionar, mas instigar. Enquanto muitos filmes não conseguem tirar o mínimo do máximo, Las Acacias tira o máximo do mínimo.    

Deni Ireneu Alfaro Rubbo é cientista social

Serviço
Filme: Las Acacias
Ano: 2010
Direção: Pablo Giorgelli
Produção: Argentina/Espanha

Fonte: Brasil de Fato

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