Em um ensaio intitulado A defesa da palavra, redigido em meados da década de 1970, o escritor Eduardo Galeano alertava que a ordem social vigente perverte e aniquila a capacidade da imensa maioria dos homens e reduz a possibilidade de criação ao exercício profissional de um punhado de especialistas. Muitas vezes, por mais revolucionários que digam ser, os escritores ao invés de desafiar o bloqueio que o sistema impõe à mensagem dissidente, se dirigem a um público reduzido ou desenvolvem as fórmulas mais banais de esterilização das consciências. Assim, Galeano assevera: “Desconfiemos dos aplausos. Às vezes nos felicitam os que nos consideram inócuos”.
Na contramão dessa tendência, parte significativa do cinema contemporâneo argentino tem dado provas da possibilidade de criar um cinema livre e crítico que, sob uma sociedade presa, somente pode ser aquele que irradia esperança e denúncia.
Bem entendido, Las Acacias, do estreante diretor Pablo Giorgelli, é fruto daquilo que se pode dizer genericamente (mas com o risco de simplificações) de consciência crítica cinematográfica que o país de Julio Cortázar vivencia. Surpreendentemente o filme ora citado não propõe divagar sobre a História (com maiúscula) social e política da Argentina. Ao menos, diretamente. Na verdade, a última coisa que almeja a obra de Giorgelli é tornar-se um “grande filme”, mas talvez exatamente por isso seja um.
Vencedor do prêmio Camera d’Or do Festival de Cannes em 2011, o filme narra a viagem de três personagens (na realidade, são dois, Rubem e Jacinta, sendo que a terceira, Anahi, é uma bebê de cinco meses) que percorrem a estrada de Assunção com destino à Buenos Aires dentro de um caminhão. Trata-se, portanto, de um road-movie. Contudo, nessa estrada, não teremos acontecimentos e aventuras mirabolantes como Thelma & Louise (1991) e outros tantos filmes que seguem o mesmo estilo. Ele tende a inclinar-se mais, embora com outras questões e estilos distintos, à atmosfera da – boa – companhia de Johann e Ranulpho deCinema, Aspirinas e Urubus (2005).
São personagens silenciosos e solitários e, por isso, cada palavra enunciada, cada expressão facial, cada gesto, assume total relevância. Frases são dificilmente enunciadas. Como se o passado de cada um tivesse um peso tão doloroso que tivessem desistido da prosa fluída. Aos poucos, desconforto, rispidez, frieza, desinteresse, impaciência cedem para o esboço do sorriso, da gentileza de abrir a porta, da educação de oferecer um cigarro ou chimarrão, da alegria em falar a língua guarani, da solidariedade em fazer o bebe parar de chorar.
Isso impele o telespectador a religar coração e razão e a fazer suposições o tempo todo. A construção desse processo que vai da atitude áspera à delicadeza de ambos os personagens desperta um momento de reencantamento e esperança pela vida. Faz saltar a vida para fora dos trilhos. A estrada transforma-se no passado que possibilita a redenção de cada um.
Saberemos pouco da história desses valentes personagens até o desfecho do filme. Jacinta tem uma filha que não tem pai. Rubem tem um filho que não visita há anos, mas recorda pormenores do único encontro que teve. Jacinta vai à procura de emprego em Buenos Aires. Rubem é motorista há trinta anos. Não estão na estrada aleatoriamente. A viagem é uma necessidade objetiva, de sobrevivência.
O filme tem plena consciência sobre qual é o segredo do fracasso e, por isso, não o segue: agradar a todos. Ele não almeja aplausos. E sim interlocutores. Não espera impressionar, mas instigar. Enquanto muitos filmes não conseguem tirar o mínimo do máximo, Las Acacias tira o máximo do mínimo.
Deni Ireneu Alfaro Rubbo é cientista social
Serviço
Filme: Las Acacias
Ano: 2010
Direção: Pablo Giorgelli
Produção: Argentina/Espanha
Fonte: Brasil de Fato
Fonte: Brasil de Fato





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